Documento fundador

Manifesto-Movimento pela Sabedoria da Cultura Portuguesa e Lusófona

Paulo Borges, com contributos de Fábio Ramunni e António Guerreiro.

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Manifesto-Movimento pela Sabedoria da Cultura Portuguesa e Lusófona

Paulo Borges 1

“E assim como o romano se chama romano, porque é de Roma; e o grego se chama Grego, porque é de Grécia; e o alemão, porque é de Alemanha, assim o português se chama Mundanus, porque é de todo o mundo, e se chama Orbis, porque é de toda a redondeza da terra. E como toda a terra é sinónimo de Portugal […]”

- Padre António Vieira

“Nunca um verdadeiro português foi português: foi sempre tudo”

- Fernando Pessoa

“[...] que nenhuma das nossas almas falte à sua missão de hoje, de criar o supra-Portugal de amanhã”

- Fernando Pessoa

“E a nossa grande Raça partirá em busca de uma Índia nova, que não existe no espaço, em naus que são construídas «daquilo de que os sonhos são feitos». E o seu verdadeiro e supremo destino, de que a obra dos navegadores foi o obscuro e carnal antearremedo, realizar-se-á divinamente”

- Fernando Pessoa

“Portugal, o grande, o todo, o de amarelos, brancos, pretos e vermelhos, o de islamitas, cristãos, judeus, animistas, budistas, taoistas, o da América, Europa, Ásia, África, Oceânia […]”

- Agostinho da Silva

“Para tentar apreender o segredo da pátria portuguesa […], será permitido começar por vê-la como […] terra de fronteira”

- Dalila Pereira da Costa

“Consumada que é a Pátria, falta dizer Mátria para que no tempo os amantes escrevam o nome da realidade unificante: Frátria”

- Natália Correia

I

Considerando que:

  1. Vivemos num momento crítico da história da humanidade, onde a policrise da civilização global – mais visível em termos ecológicos, económicos e sócio-políticos, bem como na perda acelerada de saúde mental e no agravamento de uma sensação geral de mal-estar – é fundamentalmente uma crise de consciência e de cultura: dessacralização e desencantamento do mundo; perda de sentido e de propósito; velamento do fundo não-conceptual do ser e da consciência; hipertrofia do ego e desagregação da vida comunitária; confusão do pleno florescimento humano com sucesso externo, visibilidade, poder, riqueza, fama, conforto material e prazer fugaz; fragmentação e mercantilização da vida; ritmos acelerados e desumanos de trabalho, produção e consumo; alienação e destruição da natureza e da biodiversidade; perda da diversidade linguística e cultural; distracção e desconexão compulsiva, agravada pela alienação tecnológica; visões maniqueístas e polarizadoras, diabolizadoras do outro; polarização social, guerra e corrida ao armamento; crise de confiança nos líderes, nas instituições e em nós mesmos;

2. Que não há verdadeira alternativa que não venha da sabedoria inerente a ver-experienciar a realidade tal como ela é – despida dos limites da nossa percepção condicionada pela dualidade aparente, mas ilusória, entre nós e tudo quanto existe - e a viver em conformidade com isso, o que passa pelo autoconhecimento profundo e por um radical questionamento e mudança do modo como percepcionamos a nós, aos outros e ao mundo, na transição da mente conceptual e separativa para a consciência não-dual que nos é inata, de acordo com muitas tradições de sabedoria da humanidade;

3. Que a história da humanidade, para além da sua expressão exterior económica, política ou tecnológica, é fundamentalmente um processo interno de evolução da consciência e que, no fundo, embora inconscientemente, todos os seres humanos aspiram ao pleno desenvolvimento físico, psicológico, ético-moral, intelectual, criativo e espiritual, carecendo de uma cultura ao serviço desse florescimento;

4. Que a cultura em que mais imediatamente estamos inseridos, pela língua que falamos e em que pensamos e pela tradição comunitária a que pertencemos, é a que mais naturalmente nos pode oferecer caminhos de autoconhecimento e autorealização, desde que possua suficiente riqueza e profundidade para tal e, em particular, possa indicar vias de libertação dos próprios condicionamentos que lhe são inerentes (a própria língua molda uma determinada percepção da realidade, que encobre a sua essência trans-conceptual e trans-linguística);

5. Que essa cultura é para nós a (galaico-)portuguesa e lusófona e que ela reúne essas condições, pelos motivos a seguir expostos;

II

Considerando que:

  1. A comunidade de consciência, energia e vida a que chamamos Portugal – que não se reduz à população humana e não se confunde com o Estado português, abrangendo o mundo natural e os seres não-humanos, visíveis e invisíveis, que neste território habitam - é hoje a continuadora, a expressão e a metamorfose contemporânea de um multimilenar fundo cultural “silencioso ou silenciado”, como diz Eduardo Lourenço, que não constitui uma essência ou identidade imutável e estática, sendo antes um processo e um devir em aberto, em interacção com todos os demais povos, seres, nações e culturas;

  2. Este fundo, que segundo alguns remonta ao enigma da civilização atlante, teve, no quadro da actual investigação arqueológica, um momento de particular visibilidade na arte do Vale do Côa, que remonta ao Paleolítico Superior, pelo menos desde há cerca de 22000 AC. Nela predominam amplamente os motivos zoomórficos sobre os antropomórficos, sendo de destacar nestes as enigmáticas linhas em S que saem da cabeça para o alto, bem como a representação de um orgasmo masculino. Este fundo cultural pré-histórico teve um particular apogeu na irradiação da Cultura Megalítica do Neolítico (talvez desde há 6000 anos AC, sendo o cromeleque dos Almendres mais de dois milénios anterior às pirâmides do Egipto e a Stonehenge) e do Vaso Campaniforme (2800 anos AC), a partir do nosso actual território para todo o arco atlântico, mediterrâneo e Norte de África, com uma riqueza espiritual, mítica, simbólica e ritual que está ainda por plenamente desvendar. No simbolismo megalítico avulta a complementaridade do masculino (simbolismo fálico dos menires) e do feminino (simbolismo vulvar e uterino dos dólmens ou antas), um dos temas marcantes da cultura portuguesa, que abriga um relevante vínculo ao sagrado feminino;

    Conjunto de menires do Cromeleque dos Almendres
    Cromeleque dos Almendres · Fotografia: João Carvalho · Domínio público
    Labirinto de Mogor, na Galiza, gravado na superfície de uma rocha
    Labirinto de Mogor (Galiza) · Fotografia: Paulo Borges
  3. Este mesmo fundo também se manifestou na Cultura Castreja, com raízes na Idade do Cobre (desde há 3000 anos AC) e plenamente florescente na Idade do Ferro (desde 800 AC), no actual território de Portugal e Galiza;

  4. Outra das suas mais relevantes manifestações configurou-se nos Lusitanos, cuja singularidade étnico-cultural e amor à liberdade e independência os levou à mais longa resistência, de cerca de dois séculos, à invasão do seu território pela maior e mais hegemónica superpotência de então, o Império Romano;

  5. No final do século IV, quando o cristianismo se tornou a religião oficial do Império romano e se mundanizou, nas províncias romanas da Galécia e da Lusitânia surgiu um mentor carismático, Prisciliano, em torno do qual despontou um movimento de reforma ascética e contemplativa da vida cristã, o Priscilianismo, que foi considerado heterodoxo e reprimido pelo poder eclesiástico e político, mas que colheu uma enorme adesão da população e gerou ou fortaleceu, segundo Jaime Cortesão, o sentimento de diferenciação social e cultural que contribuiu para o surgimento posterior da nação portuguesa. Prisciliano, decapitado em 385, foi o primeiro mártir que a Igreja fez no seu próprio seio e advogava a possibilidade de todos serem profetas do espírito divino, a leitura e livre interpretação de evangelhos não canónicos, a igualdade de homens e mulheres quanto ao ensino e pregação espirituais, o vegetarianismo e uma espiritualidade em comunhão com a natureza. Segundo alguns intérpretes o Priscilianismo representou uma síntese do cristianismo com o fundo celta e pagão da cultura indígena, hoje sobrevivente na cultura popular galaico-portuguesa;

  6. A cultura popular galaico-portuguesa é muito rica no que respeita à preservação de temas míticos e experiências rituais arcaicas, como por exemplo, entre muitos outros, as narrativas sobre mouras encantadas, a Santa Companha e as festas transmontanas dos Caretos, cujo sentido iniciático, simbólico e ritual é muito fecundo, expressando a relação dos humanos com o mundo invisível;

  7. As designações mais antigas do território hoje nomeado como Portugal encerram uma profunda riqueza mítico-simbólica, correspondente a arquétipos por desvendar: Oestrímnia (o lugar do oïstros, a paixão extática, na relação íntima com o abismo oceânico), Ophyussa (Terra das Serpentes), Lusitânia (conotada com as divindades Liber-Luso-Dioniso e Lug) e o próprio Portugal (cujo nome, tal como a Galiza, pode derivar de Cailleach, a deusa-anciã “velada” ou “encoberta” da tradição irlandesa e escocesa, que figura a soberania da Terra primordial, não domesticada pelos humanos). Os nomes deste lugar são numes, expressões das hierofanias do espírito que o habita, onde se destaca uma relação privilegiada com o êxtase, a metamorfose, a sabedoria, a libertação e o sagrado feminino (a circunscrição das Terras de Santa Maria, no século IX, foi um dos berços de Portugal);

  8. A lírica galaico-portuguesa, com destaque para as cantigas de Amigo, é fortemente singular no contexto da lírica medieval europeia, pelo travestimento dos autores masculinos em vozes femininas, pela forte ligação à oralidade popular, com uma musicalidade repetitiva que sugere dança ou canto colectivos, e pelos cenários naturais onde a emoção amorosa se funde com a paisagem, numa atmosfera animista. É uma poesia de amor e saudade que marca toda a lírica galaico-portuguesa;

  9. A cultura medieval portuguesa é rica em narrativas visionárias e místicas, com destaque para A Visão de Túndalo, a Navegação de São Brandão, o Conto de Amaro e o Bosco Deleitoso, onde se afirma a possibilidade e se indicam caminhos para visitar o Paraíso – por vezes em viagens marítimas a ilhas, culminando na Ilha dos Amores em Luís de Camões - ou mesmo ver Deus face a face, nesta mesma vida, o que encerra uma imensa riqueza espiritual por explorar;

  10. O ciclo do Graal é marcante na cultura e na corte medieval portuguesas, havendo uma versão da Demanda do Santo Graal, talvez do final do século XIII, com um rico simbolismo espiritual e iniciático também por conhecer e aprofundar;

  11. Portugal nasceu sob o signo da Ordem do Templo, ou seja, da união entre contemplação e acção e de uma espiritualidade não separada do mundo. Quando a Ordem do Templo foi acusada de heresia, perseguida e extinta por Filipe IV de França e pelo Papa Clemente V, em 1312, o rei Dom Dinis protegeu os Templários criando a Ordem de Cristo, em 1319, para a qual transferiu os cavaleiros e os seus bens. A Ordem de Cristo presidiu às viagens marítimas, estando a sua cruz nas velas das naus;

  12. No mesmo século XIV surgiu, por iniciativa laica da Rainha Santa Isabel, o Culto Popular do Espírito Santo, com influências da visão de Joaquim de Flora, também considerada heterodoxa, acerca da vinda de uma terceira idade, a do Espírito Santo, que sucederia às do Pai e do Filho e traria consigo o dom da “inteligência espiritual”, pela qual haveria um conhecimento directo do divino em cada ser humano, dispensando mediadores. Jaime Cortesão, Agostinho da Silva e Natália Correia viram nesta Festa e nos seus três momentos – libertação de presos, bodo gratuito e coroação de uma criança como Imperador/Imperatriz do Espírito Santo – o ritual profético do futuro de Portugal e do mundo (segundo Cortesão e outros, os Painéis de São Vicente, atribuídos a Nuno Gonçalves e ícone maior da pintura portuguesa, são o “Retábulo da investidura da nação pelo Espírito Santo”). Levar a mensagem do Paracleto a toda a Terra seria a verdadeira missão dos Descobrimentos portugueses, entretanto traída ou adiada e pervertida no estabelecimento de um império territorial político-religioso;

    Painel do Infante, dos Painéis de São Vicente, atribuído a Nuno Gonçalves
    Painel do Infante · Nuno Gonçalves · Domínio público
  13. Autores como Luís de Camões, Padre António Vieira, Raul Leal, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva, entre outros, assumem o mito-profecia do Quinto Império como ícone da vocação de Portugal para a universalidade, formulando uma nova síntese espiritual e cultural que integre o essencial de todas as tradições e culturas num novo estado de consciência e numa nova comunidade ético-espiritual, contribuindo para a paz exterior e interior no mundo e para uma nova era da aventura humana na Terra. Segundo Agostinho da Silva, “Os portugueses levaram a Europa ao mundo, mas agora todos aqueles que falam a língua portuguesa têm o dever de trazer o Mundo à Europa”. O sentido e missão de Portugal, segundo estes autores, é autotranscender-se na criação do que Pessoa chamou o “supra-Portugal de amanhã”. Esta visão do Quinto Império (com a excepção do Padre António Vieira) convida a uma revisão e superação crítica do providencialismo lusocêntrico enraizado no mito da aparição de Cristo a Dom Afonso Henriques na véspera da batalha de Ourique, missionando a nação, como um novo povo eleito, para a edificação de um império apenas cristão. O Quinto Império, na visão de Fernando Pessoa, é um império andrógino, onde se reúnem as polaridades feminina e masculina do ser e as funções analítica e sintéctica dos hemisférios cerebrais. O Quinto (não-)Império não pressupõe a superioridade de um “povo eleito”, mas antes o advento de uma nova espiritualidade, cultura e civilização fundadas na consciência desperta e holística, na realização integral e na fraternidade universal: aquilo a que chamamos Irmânia.

  14. O mito-profecia do Quinto Império conjuga-se com o do rei Encoberto, derivado da influência conjunta do mito do rei Artur, oculto na ilha de Avalon, e das formas particulares de messianismo hebraico, que confluem no sebastianismo. As Trovas de Bandarra referem-se ao Encoberto, o Rei-Messias por vir, que trará paz e verdade ao mundo, como “Dom Foam”, o que na época significa “Dom Fulano”, sugerindo que é todo o ser humano que pode assumir a soberania messiânica e redentora. Sampaio Bruno declarou que o Encoberto é o “Homem” e Fernando Pessoa e Agostinho da Silva convergem ao apontar que o verdadeiro Encoberto está por desencobrir em cada um de nós;

  15. Nas cortes de Março de 1646, D. João IV proclamou Nossa Senhora da Conceição Rainha de Portugal e a verdadeira soberana da nação, consagrando-lhe Portugal e oferecendo-lhe simbolicamente a coroa. É um fenómeno singular de entrega do poder ao divino, que confirma, agora na vertente cristã, a relação marcante de Portugal com o sagrado feminino, que remonta à pré-história e ao período anterior à fundação da nacionalidade (Terras de Santa Maria), estando porventura presente no próprio nome de Portugal (a Cailleach, a deusa velada ou encoberta);

  16. Portugal tem uma história marcada pelo convívio inicial de cristãos, judeus e muçulmanos no seu território, bem como pela diáspora das viagens marítimas, que o tornaram pioneiro do encontro com povos e culturas não-europeias, nomeadamente os indígenas de África e da América e os povos e culturas da Índia, China, Tibete e Japão, entre muitos outros países orientais. Estes contactos foram ambivalentes, tendo infelizmente, apesar da propensão dos portugueses para a miscigenação com outros povos e culturas, predominado o sentimento de superioridade e o imperialismo religioso, político e cultural, que reduziu a capacidade da cultura portuguesa se enriquecer com os contributos de culturas, sabedorias e espiritualidades diferentes. Isto não anula a permanência da vocação universalista já referida, bem como do potencial para o encontro e diálogo intercultural e inter-religioso, significativamente patente no contributo para o surgimento do Brasil, enquanto comunidade multiétnica, multicultural e plurirreligiosa, que sintetiza a cultura europeia, portuguesa, indígena e africana. Segundo Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva os Descobrimentos quinhentistas foram apenas, como diz Pessoa, “o obscuro e carnal antearremedo”, o prelúdio de novas Descobertas futuras, fundamentalmente espirituais e culturais, onde importa que a vocação portuguesa para o serviço do bem universal se cumpra plenamente. Esse serviço foi visionado – por Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa – como contributo para o advento de uma nova espiritualidade e religiosidade. O universalismo do sentido de Portugal está bem simbolizado na esfera armilar no centro da bandeira nacional;

    As duas colunas do Cais das Colunas diante do Tejo, com os degraus junto à água
    Cais das Colunas, Lisboa · Fotografia: Paulo Borges
  17. Os aspectos negativos da história exterior de Portugal – a nossa coresponsabilidade pelos fenómenos da Inquisição, intolerância religiosa, imperialismo, colonialismo, esclavagismo e racismo – não devem ser esquecidos, negados, branqueados ou legitimados, mas também não devem converter-se no fardo de uma culpabilização autoflageladora, traumática e paralisante. A solução saudável é integrar essa “sombra” da nossa história colectiva de forma consciente, reconhecendo os condicionamentos que a originaram e assegurando que não se repetem no presente e no futuro. Porventura esses fenómenos resultaram, em parte, de um modo disfuncional e condicionado de manifestação da mesma vocação de encontro universal atrás referida, agora em condições de se desenvolver plenamente;

  18. Portugal tem uma riquíssima, original e muito desconhecida tradição filosófica, muitas vezes exercida em estreita relação com o mito, a espiritualidade, a poesia, a literatura e a arte, onde se acentuam temas como o mistério e sacralidade do ser, o sentido último da vida e a experiência do divino, o silêncio, espanto e maravilhamento, a experiência visionária, mística e contemplativa, a comunhão e fusão com a natureza, eros, amor e saudade (a saudade essencial como indestrutível vínculo à plenitude), a relação entre sonho, ilusão e realidade, a intuição e imaginação criadora, a crítica do antropocentrismo e a sacralidade do cosmos, a compaixão por todas as formas de vida, a inter-espiritualidade e o diálogo com outras culturas, o messianismo, o regresso ao Paraíso, a redenção universal. A nossa tradição filosófica convida a uma transformação profunda da consciência e da vida, em alternativa à decadência académica da filosofia ocidental na mera especulação intelectual, análise conceptual, disputa argumentativa e hermenêutica textual;

  19. A nação e a cultura portuguesas são actualmente herdeiras e continuadoras de toda esta sabedoria e experiência, possuindo um riquíssimo património de mitos, símbolos, ritos, espiritualidade, arte, literatura e filosofia. Está por desvendar o sentido mítico, simbólico e ritual de muitas tradições da cultura popular, que têm sido desconsideradas pela cultura erudita. Neste património de sabedoria e experiência encontramos ideias e propostas muito actuais e fortemente alternativas à policrise da civilização contemporânea, convidando a um diferente estado de consciência e modo de estar no mundo, com um enorme potencial libertador do crescente mal-estar planetário em termos mentais, sociais, políticos e ambientais;

  20. A língua portuguesa é hoje falada por cerca de 290 milhões de pessoas, sendo a 4ª língua mais falada do planeta e a mais falada em todo o hemisfério sul. Segundo projecções da ONU, estima-se que a comunidade lusófona possa chegar aos 500 milhões de falantes até final do século XXI;

  21. A grande maioria dos portugueses desconhece ou desconsidera a sua multimilenar cultura tradicional e a sabedoria nela presente, particularmente no que respeita aos seus elementos mais característicos e distintivos, aqui destacados, entre outros. Isto é em boa parte responsabilidade das instituições culturais e educativas públicas e privadas, que privilegiam modelos importados de uniformização global desajustados da tradição cultural e das propensões psicológicas nacionais. Isto faz com que muitos portugueses e lusófonos se sintam desconectados da sua cultura tradicional, padecendo de um complexo de inferioridade em relação a outras culturas, nomeadamente as de nações económica, tecnológica, política e mediaticamente mais poderosas, que configuram o modelo social e mental dominante e constituem o império que hoje devasta o mundo em termos de opressão e exploração do ser humano, dos demais seres vivos e da natureza. A maioria dos portugueses, mesmo os que buscam alternativas à crise espiritual contemporânea, ignoram a riqueza da sua própria tradição. Vivemos (auto)colonizados por uma cultura global alienante, de distracção e consumo;

  22. A reacção a isto assume por vezes a forma de um nacionalismo ou patriotismo estreitos e retrógrados, chauvinistas e agressivos, que ignoram ou rejeitam a riqueza e o dinamismo evolutivo e universalista da cultura portuguesa, em interacção com as culturas planetárias, e padecem de um complexo de superioridade que é a mera inversão e compensação do referido complexo de inferioridade;

  23. Portugal está hoje na moda, a nível mundial, mas a quem nos visita e se interessa pela cultura portuguesa é oferecido um quadro parcial, superficial e estereotipado da mesma, que resulta da sua ignorância pela generalidade dos portugueses, efeito do silenciamento do nosso arcaico fundo cultural pelas instituições culturais e educativas nacionais;

  24. Há por outro lado tentativas de apropriação de vários temas e aspectos da cultura portuguesa, com fins meramente comerciais, por quem a desconhece e pretende apenas aproveitar o seu potencial em termos de mercantilismo cultural;

  25. Esta situação empobrece Portugal, o mundo e a humanidade. A ignorância e descuido do que há de mais singular e profundo na cultura portuguesa e na sua sabedoria, diluindo-a na hegemonia de uma cultura global superficial, mercantilista e consumista, lesa a riqueza, diversidade e pluralidade da experiência humana na Terra. No que respeita a Portugal, o autodesconhecimento da nossa multimilenar cultura tradicional priva-nos de presente e de futuro e deixa-nos mais vulneráveis às forças político-económicas que nos pretendem reduzir a mera estância do turismo de massas mundial.

II

Propomos:

  1. Promover um movimento global de descoberta, conhecimento, valorização, cultivo e aprofundamento dos temas e aspectos mais característicos, singulares e universais da sabedoria inerente à cultura portuguesa e lusófona, desde as suas profundas raízes pré-históricas até ao presente, dando-lhes uma expressão actual e futurante, adequada aos desafios da busca de alternativas à policrise da civilização contemporânea. Trata-se de despertar, activar e manifestar os poderosos arquétipos do nosso inconsciente cultural. A motivação deste movimento não é o mero cultivo e engrandecimento da identidade cultural nacional, mas a assunção do que nela há de mais sábio, singular e universal para o oferecer e colocar ao serviço do bem de todos os seres humanos, de todos os seres sencientes, da Terra e do Cosmos;

  2. Promover – sempre que possível em espaços simbólicos, sagrados e em comunhão com a natureza - encontros, celebrações, festivais, convívios, refeições, tertúlias, palestras, meditações e outras práticas contemplativas, caminhadas, cursos, publicações e outras iniciativas onde os aspectos espirituais, mito-simbólicos e rituais, filosóficos, artísticos e literários da cultura portuguesa e lusófona sejam cultivados, de modo a gerar um sentimento de comunidade e formar uma crescente massa crítica e criativa que funcione como um catalisador da transformação das consciências e, por extensão, da sociedade portuguesa e das suas instituições. É particularmente importante promover eventos culturais onde se encenem, recriem e vivenciem os grandes temas, mitos e símbolos da cultura portuguesa e lusófona, de uma forma participada por todos, onde se supere a distinção entre autores, actores e público, bem como entre cultura popular e erudita. É também fundamental criar-se uma nova linguagem, onde se harmonize o imaginário tradicional e a sensibilidade contemporânea;

  3. Criar uma comunidade movida pelo espírito universalista da cultura portuguesa e lusófona na sua diversidade de visões, perspectivas, leituras e propostas, onde unidade e diversidade se harmonizem, se cultivem e aprofundem relações fraternas e solidárias e todos possam sentir que pertencem;

  4. Contribuir para a evolução, abertura e metamorfose criativa do sentimento de identidade e consciência cultural portuguesa e lusófona, na abertura, diálogo e conexão com todos os povos, culturas e tradições, mostrando a compatibilidade entre singularidade e universalidade e que a nossa vocação é desfazer muros e criar pontes;

  5. Cultivar um genuíno amor e sentimento de comunhão com a terra, os seres vivos, plantas, animais e espaços naturais de Portugal, despertando para a sua sacralidade. Despertar para a dimensão mais-do-que-humana, natural e cósmica, visível e invisível, de Portugal;

    Árvore de ramos largos entre rochas cobertas de musgo
    Árvore, pedra e musgo · Fotografia: Fábio Ramunni
  6. Cultivar na comunidade portuguesa e lusófona um sentimento de compromisso e missão de conhecer, aprofundar e transmitir às crianças e aos mais jovens, às gerações futuras e ao mundo o nosso multimilenar património tradicional e legado cultural, as nossas propostas e visões de um sentido mais sábio e pleno para a vida humana na Terra e no Cosmos;

  7. Sensibilizar pensadores, investigadores, artistas e escritores para o espírito, princípios e valores assumidos neste Manifesto-Movimento, encorajando-os, conscientes do papel fundamental do pensamento e da arte na transformação da consciência individual e colectiva, a integrarem na sua actividade as propostas aqui apresentadas que em si mais ressoarem.

  8. Criar uma Escola de Sabedoria da Cultura Portuguesa e Lusófona, que ofereça vários níveis de formações neste âmbito, acessíveis a todos.

  9. Estas propostas visionam uma humanidade menos dominada pela ignorância, pelo medo, pela agressão, pela competição, pelo poder, pela aquisição e acumulação, e mais guiada pela sabedoria, pela liberdade, pela compreensão, pela fraternidade, pela generosidade, pela criatividade e pela comunhão com todas as dimensões da realidade e formas de vida, numa nova síntese espiritual, cultural e civilizacional onde o ser não seja sacrificado ao ter, o silêncio contemplativo se reconheça como sagrado e a diversidade de culturas expresse uma unidade mais harmoniosa e verdadeira. Este Manifesto-Movimento assume a promoção da sabedoria da cultura (galaico-)portuguesa e lusófona como um contributo fundamental para isso, no advento, não só futuro, mas a cada instante, do que se chama Império do Espírito Santo, Quinto Império ou, como preferimos, Irmânia.

Raios de sol atravessam as nuvens e iluminam o mar visto do alto da Peninha
Vista da Peninha · Fotografia: Paulo Borges

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