Parte 2 de 4
As raízes e os caminhos da sabedoria
II
Considerando que:
A comunidade de consciência, energia e vida a que chamamos Portugal – que não se reduz à população humana e não se confunde com o Estado português, abrangendo o mundo natural e os seres não-humanos, visíveis e invisíveis, que neste território habitam - é hoje a continuadora, a expressão e a metamorfose contemporânea de um multimilenar fundo cultural “silencioso ou silenciado”, como diz Eduardo Lourenço, que não constitui uma essência ou identidade imutável e estática, sendo antes um processo e um devir em aberto, em interacção com todos os demais povos, seres, nações e culturas;
Este fundo, que segundo alguns remonta ao enigma da civilização atlante, teve, no quadro da actual investigação arqueológica, um momento de particular visibilidade na arte do Vale do Côa, que remonta ao Paleolítico Superior, pelo menos desde há cerca de 22000 AC. Nela predominam amplamente os motivos zoomórficos sobre os antropomórficos, sendo de destacar nestes as enigmáticas linhas em S que saem da cabeça para o alto, bem como a representação de um orgasmo masculino. Este fundo cultural pré-histórico teve um particular apogeu na irradiação da Cultura Megalítica do Neolítico (talvez desde há 6000 anos AC, sendo o cromeleque dos Almendres mais de dois milénios anterior às pirâmides do Egipto e a Stonehenge) e do Vaso Campaniforme (2800 anos AC), a partir do nosso actual território para todo o arco atlântico, mediterrâneo e Norte de África, com uma riqueza espiritual, mítica, simbólica e ritual que está ainda por plenamente desvendar. No simbolismo megalítico avulta a complementaridade do masculino (simbolismo fálico dos menires) e do feminino (simbolismo vulvar e uterino dos dólmens ou antas), um dos temas marcantes da cultura portuguesa, que abriga um relevante vínculo ao sagrado feminino;

Cromeleque dos Almendres · Fotografia: João Carvalho · Domínio público 
Labirinto de Mogor (Galiza) · Fotografia: Paulo Borges Este mesmo fundo também se manifestou na Cultura Castreja, com raízes na Idade do Cobre (desde há 3000 anos AC) e plenamente florescente na Idade do Ferro (desde 800 AC), no actual território de Portugal e Galiza;
Outra das suas mais relevantes manifestações configurou-se nos Lusitanos, cuja singularidade étnico-cultural e amor à liberdade e independência os levou à mais longa resistência, de cerca de dois séculos, à invasão do seu território pela maior e mais hegemónica superpotência de então, o Império Romano;
No final do século IV, quando o cristianismo se tornou a religião oficial do Império romano e se mundanizou, nas províncias romanas da Galécia e da Lusitânia surgiu um mentor carismático, Prisciliano, em torno do qual despontou um movimento de reforma ascética e contemplativa da vida cristã, o Priscilianismo, que foi considerado heterodoxo e reprimido pelo poder eclesiástico e político, mas que colheu uma enorme adesão da população e gerou ou fortaleceu, segundo Jaime Cortesão, o sentimento de diferenciação social e cultural que contribuiu para o surgimento posterior da nação portuguesa. Prisciliano, decapitado em 385, foi o primeiro mártir que a Igreja fez no seu próprio seio e advogava a possibilidade de todos serem profetas do espírito divino, a leitura e livre interpretação de evangelhos não canónicos, a igualdade de homens e mulheres quanto ao ensino e pregação espirituais, o vegetarianismo e uma espiritualidade em comunhão com a natureza. Segundo alguns intérpretes o Priscilianismo representou uma síntese do cristianismo com o fundo celta e pagão da cultura indígena, hoje sobrevivente na cultura popular galaico-portuguesa;
A cultura popular galaico-portuguesa é muito rica no que respeita à preservação de temas míticos e experiências rituais arcaicas, como por exemplo, entre muitos outros, as narrativas sobre mouras encantadas, a Santa Companha e as festas transmontanas dos Caretos, cujo sentido iniciático, simbólico e ritual é muito fecundo, expressando a relação dos humanos com o mundo invisível;
As designações mais antigas do território hoje nomeado como Portugal encerram uma profunda riqueza mítico-simbólica, correspondente a arquétipos por desvendar: Oestrímnia (o lugar do oïstros, a paixão extática, na relação íntima com o abismo oceânico), Ophyussa (Terra das Serpentes), Lusitânia (conotada com as divindades Liber-Luso-Dioniso e Lug) e o próprio Portugal (cujo nome, tal como a Galiza, pode derivar de Cailleach, a deusa-anciã “velada” ou “encoberta” da tradição irlandesa e escocesa, que figura a soberania da Terra primordial, não domesticada pelos humanos). Os nomes deste lugar são numes, expressões das hierofanias do espírito que o habita, onde se destaca uma relação privilegiada com o êxtase, a metamorfose, a sabedoria, a libertação e o sagrado feminino (a circunscrição das Terras de Santa Maria, no século IX, foi um dos berços de Portugal);
A lírica galaico-portuguesa, com destaque para as cantigas de Amigo, é fortemente singular no contexto da lírica medieval europeia, pelo travestimento dos autores masculinos em vozes femininas, pela forte ligação à oralidade popular, com uma musicalidade repetitiva que sugere dança ou canto colectivos, e pelos cenários naturais onde a emoção amorosa se funde com a paisagem, numa atmosfera animista. É uma poesia de amor e saudade que marca toda a lírica galaico-portuguesa;
A cultura medieval portuguesa é rica em narrativas visionárias e místicas, com destaque para A Visão de Túndalo, a Navegação de São Brandão, o Conto de Amaro e o Bosco Deleitoso, onde se afirma a possibilidade e se indicam caminhos para visitar o Paraíso – por vezes em viagens marítimas a ilhas, culminando na Ilha dos Amores em Luís de Camões - ou mesmo ver Deus face a face, nesta mesma vida, o que encerra uma imensa riqueza espiritual por explorar;
O ciclo do Graal é marcante na cultura e na corte medieval portuguesas, havendo uma versão da Demanda do Santo Graal, talvez do final do século XIII, com um rico simbolismo espiritual e iniciático também por conhecer e aprofundar;
Portugal nasceu sob o signo da Ordem do Templo, ou seja, da união entre contemplação e acção e de uma espiritualidade não separada do mundo. Quando a Ordem do Templo foi acusada de heresia, perseguida e extinta por Filipe IV de França e pelo Papa Clemente V, em 1312, o rei Dom Dinis protegeu os Templários criando a Ordem de Cristo, em 1319, para a qual transferiu os cavaleiros e os seus bens. A Ordem de Cristo presidiu às viagens marítimas, estando a sua cruz nas velas das naus;
No mesmo século XIV surgiu, por iniciativa laica da Rainha Santa Isabel, o Culto Popular do Espírito Santo, com influências da visão de Joaquim de Flora, também considerada heterodoxa, acerca da vinda de uma terceira idade, a do Espírito Santo, que sucederia às do Pai e do Filho e traria consigo o dom da “inteligência espiritual”, pela qual haveria um conhecimento directo do divino em cada ser humano, dispensando mediadores. Jaime Cortesão, Agostinho da Silva e Natália Correia viram nesta Festa e nos seus três momentos – libertação de presos, bodo gratuito e coroação de uma criança como Imperador/Imperatriz do Espírito Santo – o ritual profético do futuro de Portugal e do mundo (segundo Cortesão e outros, os Painéis de São Vicente, atribuídos a Nuno Gonçalves e ícone maior da pintura portuguesa, são o “Retábulo da investidura da nação pelo Espírito Santo”). Levar a mensagem do Paracleto a toda a Terra seria a verdadeira missão dos Descobrimentos portugueses, entretanto traída ou adiada e pervertida no estabelecimento de um império territorial político-religioso;

Painel do Infante · Nuno Gonçalves · Domínio público