Parte 1 de 4
A cultura e o florescimento humano
Manifesto-Movimento pela Sabedoria da Cultura Portuguesa e Lusófona
Paulo Borges 1
“E assim como o romano se chama romano, porque é de Roma; e o grego se chama Grego, porque é de Grécia; e o alemão, porque é de Alemanha, assim o português se chama Mundanus, porque é de todo o mundo, e se chama Orbis, porque é de toda a redondeza da terra. E como toda a terra é sinónimo de Portugal […]”
- Padre António Vieira
“Nunca um verdadeiro português foi português: foi sempre tudo”
- Fernando Pessoa
“[...] que nenhuma das nossas almas falte à sua missão de hoje, de criar o supra-Portugal de amanhã”
- Fernando Pessoa
“E a nossa grande Raça partirá em busca de uma Índia nova, que não existe no espaço, em naus que são construídas «daquilo de que os sonhos são feitos». E o seu verdadeiro e supremo destino, de que a obra dos navegadores foi o obscuro e carnal antearremedo, realizar-se-á divinamente”
- Fernando Pessoa
“Portugal, o grande, o todo, o de amarelos, brancos, pretos e vermelhos, o de islamitas, cristãos, judeus, animistas, budistas, taoistas, o da América, Europa, Ásia, África, Oceânia […]”
- Agostinho da Silva
“Para tentar apreender o segredo da pátria portuguesa […], será permitido começar por vê-la como […] terra de fronteira”
- Dalila Pereira da Costa
“Consumada que é a Pátria, falta dizer Mátria para que no tempo os amantes escrevam o nome da realidade unificante: Frátria”
- Natália Correia
I
Considerando que:
Vivemos num momento crítico da história da humanidade, onde a policrise da civilização global – mais visível em termos ecológicos, económicos e sócio-políticos, bem como na perda acelerada de saúde mental e no agravamento de uma sensação geral de mal-estar – é fundamentalmente uma crise de consciência e de cultura: dessacralização e desencantamento do mundo; perda de sentido e de propósito; velamento do fundo não-conceptual do ser e da consciência; hipertrofia do ego e desagregação da vida comunitária; confusão do pleno florescimento humano com sucesso externo, visibilidade, poder, riqueza, fama, conforto material e prazer fugaz; fragmentação e mercantilização da vida; ritmos acelerados e desumanos de trabalho, produção e consumo; alienação e destruição da natureza e da biodiversidade; perda da diversidade linguística e cultural; distracção e desconexão compulsiva, agravada pela alienação tecnológica; visões maniqueístas e polarizadoras, diabolizadoras do outro; polarização social, guerra e corrida ao armamento; crise de confiança nos líderes, nas instituições e em nós mesmos;
2. Que não há verdadeira alternativa que não venha da sabedoria inerente a ver-experienciar a realidade tal como ela é – despida dos limites da nossa percepção condicionada pela dualidade aparente, mas ilusória, entre nós e tudo quanto existe - e a viver em conformidade com isso, o que passa pelo autoconhecimento profundo e por um radical questionamento e mudança do modo como percepcionamos a nós, aos outros e ao mundo, na transição da mente conceptual e separativa para a consciência não-dual que nos é inata, de acordo com muitas tradições de sabedoria da humanidade;
3. Que a história da humanidade, para além da sua expressão exterior económica, política ou tecnológica, é fundamentalmente um processo interno de evolução da consciência e que, no fundo, embora inconscientemente, todos os seres humanos aspiram ao pleno desenvolvimento físico, psicológico, ético-moral, intelectual, criativo e espiritual, carecendo de uma cultura ao serviço desse florescimento;
4. Que a cultura em que mais imediatamente estamos inseridos, pela língua que falamos e em que pensamos e pela tradição comunitária a que pertencemos, é a que mais naturalmente nos pode oferecer caminhos de autoconhecimento e autorealização, desde que possua suficiente riqueza e profundidade para tal e, em particular, possa indicar vias de libertação dos próprios condicionamentos que lhe são inerentes (a própria língua molda uma determinada percepção da realidade, que encobre a sua essência trans-conceptual e trans-linguística);
5. Que essa cultura é para nós a (galaico-)portuguesa e lusófona e que ela reúne essas condições, pelos motivos a seguir expostos;