Documento fundador

Manifesto-Movimento pela Sabedoria da Cultura Portuguesa e Lusófona

Paulo Borges, com contributos de Fábio Ramunni e António Guerreiro.

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Parte 3 de 4

A vocação de Portugal e os desafios do presente

  1. Autores como Luís de Camões, Padre António Vieira, Raul Leal, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva, entre outros, assumem o mito-profecia do Quinto Império como ícone da vocação de Portugal para a universalidade, formulando uma nova síntese espiritual e cultural que integre o essencial de todas as tradições e culturas num novo estado de consciência e numa nova comunidade ético-espiritual, contribuindo para a paz exterior e interior no mundo e para uma nova era da aventura humana na Terra. Segundo Agostinho da Silva, “Os portugueses levaram a Europa ao mundo, mas agora todos aqueles que falam a língua portuguesa têm o dever de trazer o Mundo à Europa”. O sentido e missão de Portugal, segundo estes autores, é autotranscender-se na criação do que Pessoa chamou o “supra-Portugal de amanhã”. Esta visão do Quinto Império (com a excepção do Padre António Vieira) convida a uma revisão e superação crítica do providencialismo lusocêntrico enraizado no mito da aparição de Cristo a Dom Afonso Henriques na véspera da batalha de Ourique, missionando a nação, como um novo povo eleito, para a edificação de um império apenas cristão. O Quinto Império, na visão de Fernando Pessoa, é um império andrógino, onde se reúnem as polaridades feminina e masculina do ser e as funções analítica e sintéctica dos hemisférios cerebrais. O Quinto (não-)Império não pressupõe a superioridade de um “povo eleito”, mas antes o advento de uma nova espiritualidade, cultura e civilização fundadas na consciência desperta e holística, na realização integral e na fraternidade universal: aquilo a que chamamos Irmânia.

  2. O mito-profecia do Quinto Império conjuga-se com o do rei Encoberto, derivado da influência conjunta do mito do rei Artur, oculto na ilha de Avalon, e das formas particulares de messianismo hebraico, que confluem no sebastianismo. As Trovas de Bandarra referem-se ao Encoberto, o Rei-Messias por vir, que trará paz e verdade ao mundo, como “Dom Foam”, o que na época significa “Dom Fulano”, sugerindo que é todo o ser humano que pode assumir a soberania messiânica e redentora. Sampaio Bruno declarou que o Encoberto é o “Homem” e Fernando Pessoa e Agostinho da Silva convergem ao apontar que o verdadeiro Encoberto está por desencobrir em cada um de nós;

  3. Nas cortes de Março de 1646, D. João IV proclamou Nossa Senhora da Conceição Rainha de Portugal e a verdadeira soberana da nação, consagrando-lhe Portugal e oferecendo-lhe simbolicamente a coroa. É um fenómeno singular de entrega do poder ao divino, que confirma, agora na vertente cristã, a relação marcante de Portugal com o sagrado feminino, que remonta à pré-história e ao período anterior à fundação da nacionalidade (Terras de Santa Maria), estando porventura presente no próprio nome de Portugal (a Cailleach, a deusa velada ou encoberta);

  4. Portugal tem uma história marcada pelo convívio inicial de cristãos, judeus e muçulmanos no seu território, bem como pela diáspora das viagens marítimas, que o tornaram pioneiro do encontro com povos e culturas não-europeias, nomeadamente os indígenas de África e da América e os povos e culturas da Índia, China, Tibete e Japão, entre muitos outros países orientais. Estes contactos foram ambivalentes, tendo infelizmente, apesar da propensão dos portugueses para a miscigenação com outros povos e culturas, predominado o sentimento de superioridade e o imperialismo religioso, político e cultural, que reduziu a capacidade da cultura portuguesa se enriquecer com os contributos de culturas, sabedorias e espiritualidades diferentes. Isto não anula a permanência da vocação universalista já referida, bem como do potencial para o encontro e diálogo intercultural e inter-religioso, significativamente patente no contributo para o surgimento do Brasil, enquanto comunidade multiétnica, multicultural e plurirreligiosa, que sintetiza a cultura europeia, portuguesa, indígena e africana. Segundo Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva os Descobrimentos quinhentistas foram apenas, como diz Pessoa, “o obscuro e carnal antearremedo”, o prelúdio de novas Descobertas futuras, fundamentalmente espirituais e culturais, onde importa que a vocação portuguesa para o serviço do bem universal se cumpra plenamente. Esse serviço foi visionado – por Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa – como contributo para o advento de uma nova espiritualidade e religiosidade. O universalismo do sentido de Portugal está bem simbolizado na esfera armilar no centro da bandeira nacional;

    As duas colunas do Cais das Colunas diante do Tejo, com os degraus junto à água
    Cais das Colunas, Lisboa · Fotografia: Paulo Borges
  5. Os aspectos negativos da história exterior de Portugal – a nossa coresponsabilidade pelos fenómenos da Inquisição, intolerância religiosa, imperialismo, colonialismo, esclavagismo e racismo – não devem ser esquecidos, negados, branqueados ou legitimados, mas também não devem converter-se no fardo de uma culpabilização autoflageladora, traumática e paralisante. A solução saudável é integrar essa “sombra” da nossa história colectiva de forma consciente, reconhecendo os condicionamentos que a originaram e assegurando que não se repetem no presente e no futuro. Porventura esses fenómenos resultaram, em parte, de um modo disfuncional e condicionado de manifestação da mesma vocação de encontro universal atrás referida, agora em condições de se desenvolver plenamente;

  6. Portugal tem uma riquíssima, original e muito desconhecida tradição filosófica, muitas vezes exercida em estreita relação com o mito, a espiritualidade, a poesia, a literatura e a arte, onde se acentuam temas como o mistério e sacralidade do ser, o sentido último da vida e a experiência do divino, o silêncio, espanto e maravilhamento, a experiência visionária, mística e contemplativa, a comunhão e fusão com a natureza, eros, amor e saudade (a saudade essencial como indestrutível vínculo à plenitude), a relação entre sonho, ilusão e realidade, a intuição e imaginação criadora, a crítica do antropocentrismo e a sacralidade do cosmos, a compaixão por todas as formas de vida, a inter-espiritualidade e o diálogo com outras culturas, o messianismo, o regresso ao Paraíso, a redenção universal. A nossa tradição filosófica convida a uma transformação profunda da consciência e da vida, em alternativa à decadência académica da filosofia ocidental na mera especulação intelectual, análise conceptual, disputa argumentativa e hermenêutica textual;

  7. A nação e a cultura portuguesas são actualmente herdeiras e continuadoras de toda esta sabedoria e experiência, possuindo um riquíssimo património de mitos, símbolos, ritos, espiritualidade, arte, literatura e filosofia. Está por desvendar o sentido mítico, simbólico e ritual de muitas tradições da cultura popular, que têm sido desconsideradas pela cultura erudita. Neste património de sabedoria e experiência encontramos ideias e propostas muito actuais e fortemente alternativas à policrise da civilização contemporânea, convidando a um diferente estado de consciência e modo de estar no mundo, com um enorme potencial libertador do crescente mal-estar planetário em termos mentais, sociais, políticos e ambientais;

  8. A língua portuguesa é hoje falada por cerca de 290 milhões de pessoas, sendo a 4ª língua mais falada do planeta e a mais falada em todo o hemisfério sul. Segundo projecções da ONU, estima-se que a comunidade lusófona possa chegar aos 500 milhões de falantes até final do século XXI;

  9. A grande maioria dos portugueses desconhece ou desconsidera a sua multimilenar cultura tradicional e a sabedoria nela presente, particularmente no que respeita aos seus elementos mais característicos e distintivos, aqui destacados, entre outros. Isto é em boa parte responsabilidade das instituições culturais e educativas públicas e privadas, que privilegiam modelos importados de uniformização global desajustados da tradição cultural e das propensões psicológicas nacionais. Isto faz com que muitos portugueses e lusófonos se sintam desconectados da sua cultura tradicional, padecendo de um complexo de inferioridade em relação a outras culturas, nomeadamente as de nações económica, tecnológica, política e mediaticamente mais poderosas, que configuram o modelo social e mental dominante e constituem o império que hoje devasta o mundo em termos de opressão e exploração do ser humano, dos demais seres vivos e da natureza. A maioria dos portugueses, mesmo os que buscam alternativas à crise espiritual contemporânea, ignoram a riqueza da sua própria tradição. Vivemos (auto)colonizados por uma cultura global alienante, de distracção e consumo;

  10. A reacção a isto assume por vezes a forma de um nacionalismo ou patriotismo estreitos e retrógrados, chauvinistas e agressivos, que ignoram ou rejeitam a riqueza e o dinamismo evolutivo e universalista da cultura portuguesa, em interacção com as culturas planetárias, e padecem de um complexo de superioridade que é a mera inversão e compensação do referido complexo de inferioridade;

  11. Portugal está hoje na moda, a nível mundial, mas a quem nos visita e se interessa pela cultura portuguesa é oferecido um quadro parcial, superficial e estereotipado da mesma, que resulta da sua ignorância pela generalidade dos portugueses, efeito do silenciamento do nosso arcaico fundo cultural pelas instituições culturais e educativas nacionais;

  12. Há por outro lado tentativas de apropriação de vários temas e aspectos da cultura portuguesa, com fins meramente comerciais, por quem a desconhece e pretende apenas aproveitar o seu potencial em termos de mercantilismo cultural;

  13. Esta situação empobrece Portugal, o mundo e a humanidade. A ignorância e descuido do que há de mais singular e profundo na cultura portuguesa e na sua sabedoria, diluindo-a na hegemonia de uma cultura global superficial, mercantilista e consumista, lesa a riqueza, diversidade e pluralidade da experiência humana na Terra. No que respeita a Portugal, o autodesconhecimento da nossa multimilenar cultura tradicional priva-nos de presente e de futuro e deixa-nos mais vulneráveis às forças político-económicas que nos pretendem reduzir a mera estância do turismo de massas mundial.